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Anubhava - Experimentação

Postado dia 06/02/2007 às 11:45 horas, por Administrador.

                              ANUBHAVA

Experiência

                                                                                     

                                                              Telma Jábali Barretto

 

        Diz Sri Váyera que se uma religião tem teoria, prática, iniciações e não leva à realização podemos considerá-la como ineficiente ou nula.

        Num primeiro momento gostaríamos de considerar o que viria a ser essa Realização dentro do conceito Suddha, ou seja, a experiência do discípulo que  conheceu, estudou e devotamente praticou o que leu, e foi assim conduzido a viver as iniciações que o colocam em contato  com uma maior descida de energia que deverá levá-lo a viver o que chamamos de realização.

        Essa Realização,  que aqui nos referimos, é a vivência daquilo que foi a teoria básica do Shastra, do conhecimento, de onde saímos inicialmente, ponto de partida de toda e qualquer realização, passando pelo comprometimento, ou envolvimento por aquela base teórica que possa ter nos encantado, mas que deverá também  nos envolver o suficiente para levar-nos à experimentação.

        Vamos recordar então o que seria a base principal e fundamental  proposta na Suddha Dharma. Em primeiro lugar, para satisfazer nossas necessidades filosóficas, temos os três Mahavakyas, ou Aforismos, que, por si só  já nos levam a uma grande revolução de conceitos e a um profundo questionamento, já que nos fazem rever padrões da maneira como a divindade se apresenta e, mais ainda, como se manifesta, demonstrando  ampla e transcendente forma, que  não restringe ou impõe dogmas, mas ao contrário, abre horizontes e a tudo contém, numa abrangência  grandiosa que nos faz de fato reverenciar  o Criador e a Criação, ou melhor, o Absoluto que nada cria, mas manifesta a partir de si mesmo de maneira equânime, fazendo-nos entender  a dualidade com outros referenciais menos separativistas e mais universais. Os três Aforismos são:

        SARVAM TAT KHALVIDAM BRAHM

        Tudo é verdadeiramente Deus.

        SARVAM BRAHMA SWABHAVAYAM

        Tudo é da natureza de Deus.

        SARVAM AVASYAKAM

        Tudo é necessário.

        Como vemos aqui descrito, essas  definições a tudo incluem, nada separam, fazendo-nos mesmo repensar o bem e o mal de outro enfoque, incitando-nos a profundos e diferentes posicionamentos em que, instigados, abrimos novos conceitos e aprofundamos nosso Sankya, ou seja, análise e reflexão.

        Sabemos que toda a proposta Suddha baseia-se em Sankya, estudo, ou análise, e Yoga,

Síntese, ou experimentação. Os aforismos acima citados são o primeiro contato com o aspecto Sankya, seguido do próprio Shastra de nossa escola de auto-realização que é o Bhagavad Gita, a Canção do Senhor, livro que contém a base dos quatro dharmas, ou leis, que regem todo o processo evolutivo: conhecimento, devoção, ação e síntese. Todas as nossas realizações saem da primeira lei que é o conhecimento e, se devidamente conduzido deve levar-nos à realização ou síntese ou Yoga.

         Para chegarmos a Yoga, que também é, por definição,  Anubhava ou a experiência feita pelo discípulo esforçado,  temos que passar por devoção ou amor, envolvimento e também ação.

       Extrapolando esses quatro pilares, ou leis, para o texto de Sri Váyera sobre os quatro principais fundamentos de uma verdadeira religião, diríamos que Shastra é o conhecimento,

Upasana é a vontade, Diksha é ação e Anubhava é a realização ou Yoga propriamente dita.                           Dizíamos  anteriormente que  a forma Suddha de conduzir-nos à realização divide-se em Sankya e Yoga. Sankya se dispõe da forma que acabamos de descrever e Yoga  a forma como chegaremos a vivenciar tal conhecimento é disposta assim:

       BHÁVANA  Conceito da Unidade Divina,

       KARMA       Atos  coerentes, conseqüentes e

       DHYANA     Meditação.

       Chegar então à realização no conceito Suddha é conquistar a plena vivência dos três aforismos através de Bhávana, Karma e Dhyana. Isso seria chegar a Anubhava tal como a Suddha Dharma nos propõe e é preciso que nos recordemos sempre que essa proposta é sempre um convite à experimentação. Não  trabalhamos nessa organização com dogmas, pressões, qualquer tipo de terrorismos ou crescimento pelo medo. Não teria sentido qualquer tipo de posicionamento assim, partindo de tão amplos e não excludentes  aforismos e menos ainda de tão harmoniosas formas de viver esses postulados.

       Vamos tentar aqui ver qual seria então a maneira de funcionar, baseados em uma percepção em que sabemos, acreditamos e buscamos reconhecer Deus  como origem e essência  de tudo e todos; perceber em todas as formas e seres a natureza divina e tentar entender o porquê de todas as situações como justas e necessárias, já que saímos do pressuposto que aceitamos como coerentes os aforismos que são a base teórica e primeira da Suddha Dharma. Para interpretar e justificar essas três verdades fundamentais, temos o sintético e tão complexo diálogo entre Krishna e Arjuna, o mestre e o discípulo, que é o

Bhagavad Gita. Nesse encantador e completo roteiro para a auto-realização temos o nosso guia de viagem. Ali vemos descrita desde a manifestação até os mecanismos que regem todas as batalhas que deveremos travar para conquistar a nós mesmos. Nesse  texto vemos

desde a invocação de Arjuna à  Divina Durga,  quando inicia seu Mahabharata, até as loas que oferece  a Sri Krishna, quando vence a batalha, vemos também toda a trajetória para se conhecer o mecanismo da manifestação em que fundamenta, como a origem divina permeia todos os seres e coisas, como estabelece o processo do Dharma ou proteção desses mesmos seres através dos Avataras e, principalmente, como nós, devotos, que queremos chegar à realização, devemos nos comportar para conquistar tal feito.

        Essa que é nossa escritura tem milênios e, ao longo desse Yuga,  ou idade, foram enviados mensageiros com a função de aclarar e atualizar para a linguagem de cada momento a mais apropriada forma de promover ali um maior desenvolvimento da humanidade. Olhar para os Avataras com essa compreensão nos dá  sensação de segurança, conforto de quem percebe a divindade  como proteção e não como um pai severo que nos deixa, à mercê de nossa própria ignorância, buscar o caminho na base do erro ou acerto como numa loteria que poderia nos levar à plenitude ou sofrimento, brincando com nossas vidas de uma maneira um pouco cruel demais para um Deus definido como Omnividente, Omnisciente e Omnipresente por todas as religiões.

        Chegar  aqui a esse questionamento já, por si, é uma forma de realização, de compreensão em um nível a mais ampla percepção da própria divindade. Perceber isso como uma realidade, como a lógica natural, não só para nosso discernimento, mas como uma bênção e acalanto para nossos corações é o primeiro ponto de experimentação em que começamos a viver além dos pares de opostos, dicotômicos, antagônicos tão absolutamente conflituosos e que tiram a paz e nos colocam numa percepção da vida com medos, cobranças e ansiedades  que chegam atormentar mais do que serenar nossa alma. Claro é que também aquele que crê em seu coração que a pura e simples aceitação  de um mensageiro e sua palavra são suficientes para acalmar seu coração também ali promoverão essa paz e conforto, mas aquele que não mais se satisfaz com essa forma de aceitação e entendimento precisa  encontrar  nova e mais confortável maneira de perceber essa mesma realidade de enfoques que parecem mais ou menos coerentes para cada um. Ver a divindade como um pai bondoso ou um juiz severo ou, ainda, como Absoluto, “ Indivisível Felicidade, Sua Imagem Deus é a Verdade”,  como  expresso no Mangala Gayatri, Cântico Auspicioso em que nos reportamos e recordamos  Deus nos padrões Suddhas é uma primeira forma de conquistar essa realização que tentamos aqui descrever.

       O que, então,  esse “nosso Deus” que é Omnipotente, isso é obviamente que pode tudo, tem a nos oferecer ? O que, então, que esse “nosso Deus” que é  Omnisciente, que  sabe tudo, pode nos esclarecer ? E finalmente, então,  esse “nosso Deus,” que é Omnipresente, que está em toda parte, onde se encontra ? A depender do que esperamos ou buscamos desse Deus é que fundamentaremos nossa fé. Também podemos dizer que a cada etapa evolutiva que experimentamos vamos fazendo nossa jornada de mudanças e expectativas que temos desse Deus: quando vivenciamos uma fase essencialmente materialista nossa concepção de  Deus e suas soluções assim também o serão; quando temos uma  percepção espiritualista da vida, assim será também nossa perspectiva do divino e suas respostas e quando temos uma  visão Suddha temos que também ter uma igualmente Suddha análise e vivência, ou seja, uma visão ampla, transcendente em que o material e espiritual  se completam e harmonizam, num contínuo e eterno jogo do processo samsárico  do desenvolvimento evolutivo, sem exclusões ou separativismos, mas num permanente fluir, promovendo a infinita aproximação do divino que é verdade, beleza, plenitude num eterno vir a ser, desabrochar, descobrir, ou Brahmasamypia.

        Dentro dessa perspectiva básica, comum a todas as religiões que afirmam a Omnipotência, Omnisciência e Omnipresença Divinas como definiríamos na Suddha Dharma: com os três  aforismos analiticamente e como Bhávana no princípio e Suddha Dhyana nas fases mais avançadas de realização.

        Como estamos aqui tentando mostrar  o que viria a ser Anubhava ou Yoga ou, ainda, numa linguagem mais cristã, comunhão, vamos focar mais esmiuçadamente  esses aspectos de vivência que devemos conquistar no exercício de Bhávana e Suddha Dhyana.

         Bhávana vem a ser o primeiro apoio prático de vivência na SD, que começa a nos levar a sentir a presença divina inicialmente como origem  única de tudo e todos, indistintamente, e, num segundo momento,  propõe que nos percebamos como partes de um único corpo cósmico. Suddha Dhyana, ou o estado transcendente de comunhão,  é  chegar a viver essa plenitude, sentindo-se divino e realmente parte desse corpo cósmico indiferenciadamente. Chegar a essa vivência é alcançar o estado que chamamos de Turya num primeiro e já grandioso estágio e ainda ultrapassá-lo como o de Turyatita, ou seja, sentir verdadeiramente a presença divina no  coração, no chakra cardíaco, como vida de  nossa vida, ou melhor ainda, sentir a Vida, a Origem Divina aí e transcendê-la, sentindo-a como a Vida Una, O Espírito Único de um único Corpo Cósmico,  sem mais distinção entre o meu ou seu espírito ou matéria, mas numa indiferenciada e única Vida.

        Realização, então, no conceito Suddha, seria chegar a experimentar o divino  como essência de  vida em nosso coração e também percebê-la em todas  as coisas e seres. Para que consigamos esse feito temos que ter vivido uma longa jornada em que fomos, passo a passo, desde entendendo nossa própria origem   até ir reconhecendo-a em cada um de nossos corpos, do mais denso ao mais sutil. Temos também que ter percebido toda a trajetória de transmutação de energias que foram, ao longo  de todo o processo, acontecendo, sutilizando forças  e energizando chakras e atualizando densidades vibratórias que nos tiraram da condição em que estávamos  e nos levaram  completamente renascidos em outros patamares de percepção e experimentação.     

        Para  conquistarmos essa realização, que é a meta principal para a qual nascemos, que é a verdadeira proposta de toda religião, ou seja, re-ligare,  aquilo que chamamos Yoga, União ou ainda comunhão, temos que ter saído um  de um bem embasado conhecimento, estudo, teoria ou Shastra. Temos que ter tido vontade, desejo, comprometimento com esse conhecimento (Upasana). Temos que ter buscado vivê-lo, praticá-lo e aí nos tornaremos merecedores das iniciações (Diksha) que trarão o combustível, Shakti, que nos levará à realização, que é a capacidade de sair da teoria e chegar a vivência propriamente dita. É impossível chegar às realizações sem que tenhamos passado pelas iniciações. As iniciações são as primeiras respostas que temos que nos dão a certeza que aprendemos e buscamos viver o que começou com uma teoria e que poderá nos levar à realização.

        Achamos bastante comum ver a forma confusa e bem pouco madura como as pessoas vêm a própria vivência de seu vínculo religioso. Sempre parece que, por já terem lido a escritura sagrada, já se sentem capacitados ou realizados naquele credo. Costumamos repetir em nossos cursos que o contato com o Shastra, ou o conhecimento, é só e unicamente o primeiro passo ou degrau da caminhada do discípulo. Esse passo exige estudo, aprofundamento, desenvolver o discernimento e critério - interpretação  da escritura, aumentar nossa capacidade de análise. No segundo passo, que é a vontade, é preciso que tenhamos o real compromisso de viver o que ali nos é proposto e, aí mesmo, até o aprofundamento no estudo já chega ser uma vontade acionada no sentido de direcionar

forças para esse investimento. Esses dois primeiros são os passos básicos em que já começamos realmente mostrar o quanto estamos ou não envolvidos com a realização que nos propomos viver e são, como Sri Vayera dizia, que são as asas que equilibram  o anjo: Sabedoria e Amor. O melhor, mais sábio, ou o mais ditático conhecimento é nada se não estimula nossa vontade para vivê-lo. A vontade, o desejo de viver uma experiência espiritual, ou seja lá qual outra realização for, sem discernimento para saber o caminho que nos leva até lá é também perda de energia, desgaste, cansaço na jornada. O terceiro passo é a ação, ou o uso do conhecimento acionado pela vontade que gera o ato em si. O agir nos mostra se já aprendemos o suficiente, se já nos envolvemos o necessário com o próprio resultado da ação. Se `nossa ação for coerente, conseqüente com o que sabíamos e desejamos, podemos dizer que ficamos realizados. Sentimento de dever cumprido. Se não, temos que repetir a trajetória atentos a qual dos passos não foi bem realizado:  falha no conhecimento, no tanto ou qualidade de vontade ou na própria ação, o que deverá resultar na insatisfação com o resultado.

         No caso da realização a que aqui nos referimos, sabemos ser uma bem mais complexa trajetória. Realizar essa comunhão na câmara etérica do coração é chegar ao estado de Turya, como descrito em nossos livros, e essa é  a mais grandiosa conquista do ser humano, que o leva a realmente se perceber divino, como imagem e semelhança de Deus. Após essa experiência, reconhecer esse mesmo divino em todos os seres passa a ser um processo natural e a próxima realização, que é    Turyatita, onde se rompe a barreira com a forma, se reconhece o divino de maneira transcendente.

         Costumamos na Suddha Dharma dizer que o critério para saber se passamos por uma verdadeira iniciação devemos estar atentos aos fatos e conduta após, que se seguem. Uma real iniciação conduzirá a uma realização, feito, obra.

         Sempre dizemos também  que essa escola de auto-realização é essencialmete prática, ou estaria  traindo sua proposta básica que descreve as quatro leis como aqui acabamos de recordar e, sendo assim, para sermos também  práticos gostaríamos de convidar  todos que  fizessem uma análise de como tem sido seus compromissos  consigo mesmos, espirituais ou materiais, para que esse conhecimento que aqui recebemos possa ser uma realidade em nossas vidas e não mais uma teoria bonita, uma informação que só ocupa um espaço de memória, guardada ou arquivada para ser lembrada como mais alguma coisa que sabemos que não serve para nada.

           É muito comum a reclamação das pessoas com o discurso de que para que serve o conhecimento se não encontrei ainda a felicidade que aqui ou ali vim buscar. Como dissemos inicialmente o conhecimento é o primeiro passo que deve responder e trazer algum conforto ou compreensão para nossas dores, mas para que possamos viver aquilo que as religiões descrevem  certamente temos que continuar com os próximos e inevitáveis passos,  que aí, sim, poderão levar `a  realização que almejamos.

          Gostaríamos de finalizar repetindo o que já dissemos anteriormente: qualquer realização depende inicialmente do conhecimento e da vontade que dirigimos para conquistá-la. As iniciações vêm pelo coerente uso do conhecimento e da vontade na execução dos atos, trazendo o combustível , Shakti, necessário para que cheguemos à realização. Muito comum é também nas  escolas de auto-conhecimento que quando as pessoas vivem algum tipo de iniciação tratem esse acontecimento como a própria realização. Essa é, como já dissemos anteriormente também, nossa imatura percepção de Diksha  em que a conceituamos como um prêmio, um presente do guru, o que de fato de alguma forma é, já que é o real resultado de nossa coerência em nossos atos. Mas em si mesmo não é a realização e, sim, apenas, o sinal que nos é dado que  avisa que estamos no caminho  certo e,  mais que isso, nos faz  responsáveis pela conquista plena de tal vivência, como uma realidade consolidada e continuada em nossa vida para  maior compromisso consigo mesmo e com os demais companheiros de jornada,  quanto mais crescemos, mais respeitamos visto que vivenciamos uma realidade mais próxima da essência de vida que é una e cada vez mais a reverenciamos em cada coisa ou ser, percebendo, também , cada vez mais, o divino se manifestar em tudo e todos.

         Subhamastu sarva jaghatam.

         Que  nós e todos os seres sejamos felizes!                                                              

 

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