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Karma e Dharma

Postado dia 04/02/2007 às 22:35 horas, por Administrador.

KARMA E DHARMA

Ação e Lei: considerações gerais

 

Telma Jábali Barretto/Agosto de 2003/Campos de Jordão

 

 

    Estamos acostumados a ouvir falar de Karma sempre de uma forma negativa, quase sempre designando algo difícil.   E como vimos essa palavra sânscrita, hoje  popularizada, literalmente significa Ação.  E Dharma, já também em processo de popularização, significa Lei, no sentido daquilo que nos protege.

    Julgamos esclarecedor para entender melhor essas duas importantes definições num sentido mais amplo e, ao mesmo tempo, mais profundo, que também conceituemos a palavra Bhava, que é de onde vamos construir o conceito de Dharma e que conseqüentemente produzirá o Karma.

    Bhava tem, como a maioria das palavras sânscritas uma enorme lista de significados, que depende do contexto para o devido uso, mas basicamente quer dizer concepção mental, motivo, natureza. Diz Sri Janardana : “É produto do veículo mental (Manas) do homem  que é veículo do desejo, Iccha.” Então, podemos dizer que,  a depender da qualidade de Manas, ou mente, que temos, determinamos o tipo de Bhava, ou concepções que teremos e, por conseqüência, produziremos o Dharma, ou Lei, que nos guiará para a construção de nosso Karma.

    Saindo da definição de Sri Janardana, quem de fato vai desencadear todo o processo   -Dharma e Karma - é a qualidade do desejo, ou seja Iccha, Se a qualidade  de nossos desejos é uma pura e simples satisfação material, vamos nos envolver com as regras e normas que guiam todo o desenvolvimento baseando-nos unicamente na ética que norteia o progresso num sentido prakrittico, desde a manutenção física de nossos corpos até aquela que se relaciona com a quantidade e qualidade de bens que valorizamos, priorizamos e conquistamos. Se por outro lado a qualidade de nossos desejos fica orientada no sentido espiritual, estaremos em primeiro plano, direcionando-nos para normas que, por uma via mais subjetiva, nos organizam para uma conduta e conquistas também mais sutis e, tanto de um lado quanto do outro, estaremos colhendo os bons ou maus resultados, ou fruto, daquilo que concebemos, normatizamos, e que, com mais ou menos consciência conseguimos  vivenciar  e forjar dentro da capacidade de cada um, ser fiel às próprias concepções (Bhava), leis (Dharma) e, aí sim,  responsavelmente dar nome à qualidade de vida que nós próprios protagonizamos (Karma).

        Podemos assim dizer que, a depender do tipo de concepção que temos da vida, estaremos criando as normas que nos nortearão para as leis que serão nosso veredito para o bom ou mau destino que vivemos ou viveremos.

      Se a nossa concepção de vida é fundamentada numa teoria  em que os bons vão para algum paraíso e os maus vão para algum inferno, teremos que  criar normas ou regras que definam o que delimita o bom e o mau e, consequentemente,  cada vez que transgredirmos esses limites, o nosso próprio árbitro interno que concebeu o paraíso ou inferno, que deliberou as suas leis de funcionamento, nos recompensará ou punirá de acordo com a coerência, ou  não, de nossos atos, gerando assim o que damos inconseqüentemente o nome de Karma.    

 Se, por outro lado, concebemos a vida como um caos, ou nenhuma definição clara de como os fatos seguem seu curso para cada existência humana, a única lei que nos guia deverá ser aquela que a sociedade ou cultura da qual fazemos parte nos prescreve.

            Se, ainda, pudermos tomar contato, inicialmente de forma racional e básica, com concepções de vida que nos descrevam formas superiores de convivência, que nos norteiam  para uma vivência do Amor no seu sentido mais pleno e absoluto, onde o respeito a cada individualidade, como única e exclusiva, e o  que cada um tem para cumprir no processo cósmico, num claro e definido papel que lhe cabe desempenhar na experiência de cada Dharma na multiplicidade, cumprindo seu intransferível  personagem na unidade universal, como nos descreve o Bhávana, ou conceito da Unidade Divina, certamente nosso Karma seria transformado numa espécie de abençoado viver.

     Como temos visto até aqui, é de fundamental importância que tenhamos um Bhava, ou concepção, num sentido mais amplo de vida, ou nos aspectos  mais corriqueiros de nossas atividades profissionais, familiares, sociais, etc. que seja cada vez mais libertador, coerente e apoiado em Dharmas superiores, ou seja, Leis que  nos aproximem  do Amor e nos distanciem do medo, que nos tirem das condições dicotômicas da antiga, mas tão próxima condição animal, da agressão e defesa. Quanto mais amplas,  arejadas, universais e cósmicas forem nossas motivações, tanto mais livres e responsáveis serão nossos compromissos e,  conseqüentemente,  mais harmônica nossa existência. Percebemos aqui a necessidade de criar uma forma de encarar a realidade humana em apoios superiores de ética e que necessariamente nos levarão ao maior compromisso com a qualidade de pensamentos, ideações  e objetivos que nos propomos e que também  resultarão numa mais madura maneira de viver. Aqui podemos entender melhor o sentido de    Karma como real resultado daquilo pensamos, acreditamos e vivemos e, mais ainda, entender a frase “Cada um é o absoluto legislador de sua vida, recompensa e punição.” – Luz no Caminho – Mabel Collins.              

    Temos que entender que a depender da qualidade do Bhava, ou seja, a forma que olhamos para o mundo é que criamos o Dharma, ou leis que deverão reger nossas ações e que a coerência entre aquilo que ideamos e vivemos vai produzir o que chamamos de bom ou mau Karma.

    Achamos de grande importância que façamos  algumas considerações tentando enquadrar este nosso senso individual de condução e os Dharmas que nos regem. Estamos dentro de uma série de pequenos Dharmas que o tempo todo nos cobram: o cultural que nos corresponde pelo nascimento neste ou naquele país, a própria região do mesmo país, a época em que vivemos neste local, as circunstâncias familiares desde econômicas, religiosas, morais, as éticas profissionais, as leis de trânsito, as leis do condomínio, as do clube, etc..... Para convivermos de forma civilizada estamos continuamente  debaixo de normas de conduta que regem o aceito e não aceito, dentro dos círculos que freqüentamos e é dentro deste  contexto que vamos  nos adequando, ou não e, assim, dependendo do Bhava, ou concepção que temos da vida, vamos confrontando, aceitando ou questionando e negociando com nossas leis versus aquelas que nos são impostas pela circunstância ao nosso redor. Se o nosso Dharma pessoal for muito elevado diante daquele que nos é cobrado socialmente, podemos conviver serenamente com as exigências que nos parecerão pequenas já que as nossas   serão superiores àquelas ali exigidas. Se, ao contrário, nosso Bhava e, por conseqüência, nosso Dharma for inferior ao meio que convivemos, teremos que nos esforçar para alcançar uma forma de vivência que ainda exige muito de nós, ou, ainda,  gerar uma série de conflitos internos que promoverão crescimento e às vezes até doenças físicas em que ficamos frente a frente com nossos limites e potencialidades e num denodado esforço damos mais um passo, rompendo barreiras e transpondo dificuldades. Por esse motivo é que sabiamente nossos gurus, ou anjos guardiães, nos colocam em situações familiares, profissionais, e até filosóficas e quantas mais forem necessárias, ao lado de pessoas e situações em que  convivemos sempre com a diversidade, promovendo nesse contato, em meio a diferenças, um maior crescimento, num eterno burilar gerando uma complexa rede de desenvolvimento. Sempre estamos em convívio com pessoas  e fatos que nos estimularão a aprender ou ensinar, mesmo sem a intenção deliberada dessa troca de conhecimento. Convivemos com pessoas que tem éticas ou posturas melhores que as nossas e, inevitavelmente, aprenderemos: incomodados se formos arrogantes, ou dispostos se formos  humildes. Convivemos também com pessoas que têm éticas ou posturas piores que as nossas e, com elas, também aprenderemos. Se estimulamos em cada um desses tipos de  contato o melhor de nós, saberemos tirar  também o melhor de cada relação ou fato. Podemos, através de nossos defeitos, trabalhar com sentimentos de inveja, disputa, arrogância, separatividade, vaidade, gerando um contínuo desconforto e desequilíbrio; ou funcionar em nossos aspectos positivos com sentimentos de cooperativismo, altruísmo, humildade e respeito. Claro fica que todos buscamos viver de forma harmônica conosco mesmos e com os demais, naquilo que chamamos de “bom karma”, mas há que se entender e criar essa condição serena e pacífica que almejamos e que, se de fato queremos, devemos construir com  correto pensar, correto discernir para arbitrar formas de funcionamento coerentes com o correto pensar, e assim, na coerência do agir, construir o harmonioso karma. A todo instante transgredimos aquilo que nós mesmos arbitramos como o correto agir e a cada vez que cruzamos nossa linha imaginária entre o certo e o errado, geramos dor e sofrimento, começando por aspectos emocionais que, se não absorvidos e compreendidos racionalmente, continuam como numa cascata, buscando vazão para a dor e alívio para o desconforto gerado, chegando  até na doença física, como último recurso para o resgate.

     Voltamos então a dizer da importância da concepção que fazemos do mundo ser de fundamental valor para construirmos aquilo que chamamos de felicidade. Se acreditamos que o mundo é feito de injustiças e que só os escolhidos serão felizes, enquanto eu não me sentir a privilegiada pela escolha divina não serei feliz. Se cremos que o viver o Dharma nos levará à felicidade buscaremos as leis que nos conduzirão até ela.

     Queremos agora falar um pouco mais sobre o Dharma. Diz o Sanatana Dharma que a cabeça de Brahman é o Amor. Esse é o supremo e eterno Dharma. Viver esse Dharma  é viver os Oito Postulados Éticos que nos levam às grandes iniciações, como nos descreve a Suddha Dharma. Viver esse Dharma   é viver os  Dez Mandamentos do Cristianismo. Viver esse Dharma é viver os Quatro Postulados Éticos  do Budismo,  e assim por diante. Então, se queremos simplificar, podemos dizer que viver o Amor na sua plenitude é a mais absoluta vivência de um Bhava superior, que conduzirá a um Dharma onde o respeito, a tolerância, a paciência, a compaixão serão nossas leis e se, coerentemente, conseguirmos agir sem transgredirmos estas leis viveremos assim um auspicioso karma, ou resultados que chamaremos de positivo. Diríamos assim que se queremos construir um bom karma, que é a reta final de uma seqüência que começou no pensar, devemos aprender a Amar. Claro que estamos falando aqui de um amar num sentido superior, em que desde o meu corpo físico até o meu espírito estejam coerentemente alinhados numa harmônica sintonia e freqüência, só gerados pela comunhão e equilíbrio entre todos os corpos e chrakras  em perfeita sincronicidade, casando meu pensar com meu agir. Esse amar a que nos referimos começa por nós mesmos. Se não somos capazes de nos amar não seremos capazes de amar o próximo. Se não somos capazes de auto-respeito, não seremos capazes de respeito ao próximo. Daí a importância da frase de Jesus quando diz: “Amar ao próximo como a si mesmo”.  Se estamos honestamente trabalhando em nossos defeitos, saberemos respeitar a dificuldade alheia em seu trabalho. Se vivemos uma conquista, saberemos admirar a conquista alheia, pois sabemos e respeitamos investimentos e compromissos feitos para esse feito. Agora, se ainda continuamos partindo de uma premissa, ou Bhava, que nos diz que só os privilegiados ou eleitos serão felizes ou darão certo, ou até como vulgarmente ouvimos dizer “que só os espertos é que se dão bem”, estamos esperando o momento em que a sorte ou a roleta russa da vida vai nos escolher para nos tornar felizes, se somos otimistas, ou ainda, pior, estamos fadados ao sofrimento se somos pessimistas.

     Aqui  podemos separar a humanidade em dois grupos: aqueles que entendem a existência de leis que normatizam as convivências e os que vêem o processo como caótico  desprovido de lógica. Normalmente falamos que isso vem do crer ou não na reencarnação, mas de fato não parece ser assim. Temos muitos ateus, cientistas, políticos, livre- pensadores, que não crêem na reencarnação mas são profundamente éticos em sua forma de viver no mundo, mesmo chamando de caos a origem de tudo que aqui temos, ou não questionando essa origem, mas responsavelmente cumprindo o que entende como Dharma, ou sua linha divisória de bem e mal, seja apoiada num posicionamento científico, filosófico ou político. Essas duas posturas mostram uma linha divisória entre aqueles que acham que faz alguma diferença  o seu posicionamento no mundo  e aqueles que  não questionam ou que não acham que podem interferir.

     Na Suddha Dharma o primeiro preceito básico proposto para o entendimento e posterior vivência é o conceito de Bhávana, em que afirmamos a presença de uma única e mesma origem para todas as coisas e seres, e que somos parte de um único corpo cósmico num eterno desenvolvimento, com iguais, eqüânimes  e perfeitas condições para um harmônico vir-a-ser.  A cada um de nós cumpre achar o seu  Dharma, o seu papel, o seu personagem no plano cósmico, único e intrasferível. Cada um de nós, à medida que eleva sua consciência para sua própria individualidade divina, Purusha,  o centro de sua Vida, vai se aproximando de seu eixo e pode, assim,  perceber seu lugar no corpo divino. Essa será a sua forma de interpretar Deus na multiplicidade, vivida a partir de sua unidade. Para chegarmos a esse estágio evolutivo, temos que construir uma longa jornada que, partindo também de uma maneira caótica de ver o mundo, começamos a  tentar ver alguma lógica, descobrimos ciências que descrevem leis da natureza que regem os mais diversos processos evolutivos, começamos a discernir leis ainda mais subjetivas que também  interferem e se somam e vamos vendo que quanto melhor conhecemos essas leis, mais nos adequamos a elas, mais beleza e harmonia vamos percebendo e vivendo. Como se saíssemos de uma nota e nos descobríssemos como parte de uma sinfonia. Temos que descobrir, nos desvendando,  qual nosso tom, nota, e em que instrumento e em que momento da música entramos para compor a melodia cósmica. Para que isso aconteça em nossa existência, e inexoravelmente acontecerá, passamos por uma etapa em que lutamos entre esse desejo da harmonia e a inconseqüência da nossa infantil percepção da realidade universal. Aos poucos, conhecendo cada vez mais o Dharma, as leis que orquestram em perfeita sintonia a manifestação divina, vamos conhecendo, e conhecendo nos maravilhando, e nos maravilhando querendo ser parte consciente, cada vez mais, e quanto mais  crescemos, mais ainda entendemos a frase do avatar quando diz “Seja feita a Sua Vontade”,  porque sabemos , agora começamos sentir, que Sua Vontade é Amor.              -  4 -

Não poderíamos encerrar este texto sem tentar entender um pouco melhor o sentido de Naishkarmya, ou  desapego ao fruto da ação que é gerado a partir do serviço impessoal. Como diz o Srimad Bhagavad Gita, não podemos viver um só momento sem executar uma ação, seja ela mental ou física. O exercício de Naishkarmya  advém do nosso trabalho em Namaskara, ou seja, rendição; que vem também originariamente de Sannyasa (renúncia) e Tyaga (entrega). Viver Naishkarmya é a forma transcendente de Karma, onde nossos atos se coroam na experimentação do Dharma superior ou Suddha Dharma.  Chegar a viver o desapego ao fruto da ação é o resultado de um longo trabalho interno em que necessariamente a alma passou por uma profunda transformação e chega aqui à real condição humana. Essa transformação só é conseqüência da clara percepção do Bhávana, ou seja, um nítido entendimento da origem divina em todas as coisas e seres como algo palpável em toda a natureza originando um Dharma apoiado em normas em que o Amor em sua plenitude, onde o respeito, a compreensão, tolerância nas mais diversas formas que a multiplicidade divina nos apresenta são  percebidos  e contatados como naturais e as ações nesse processo são harmoniosas, gerando entendimento e crescimento. Já não existem mais atos movidos pela mera iniciativa pessoal, mas só o puro desejo de viver o Dharma. Não importa mais o gosto ou desgosto, e sim, simplesmente ser instrumento de forma consciente ser instrumento do plano maior. Antes da chegada a esse ponto é preciso que a alma tenha experimentado as escolhas do gostar ou não do que se faz, ter aprendido com estas escolhas. Depois, como parte do processo, aprenderá a fazer o seu melhor naquilo mesmo que executa gostando, e só depois que, tendo feito muito bem uma enorme quantidade de atos em que se vê cumprindo com louvor tudo, ou seja,  tornou-se aquele que tem maestria nas obras, como descrevem nossos mestres,  é que começará a não diferenciar mais o fazer bem toda e qualquer coisa se lhe apresente, porque já percebeu que a mágica não está na recompensa, mas no fazer por inteiro e o melhor em tudo que se faz. Os instrumentos fundamentais para isso são Sannyasa, ou renúncia, e Tyaga, ou rendição, que começamos a vivenciar inicialmente de forma homeopática, nas pequenas coisas.  Quando fazemos algo devemos nos envolver por inteiro, renunciando a todas as demais e, em seqüência, nos entregamos também por inteiro ao que ali, naquele momento, estamos cumprindo, aprendendo a viver de forma plena no agora. Somando  tudo até aqui, saindo de um Bhava em que temos completa convicção de que nada pode ser injusto no plano cósmico, rendemo-nos confiantes ao Dharma que nos protege e nenhum ato nosso pode estar manchado agora por atitudes que seriam incoerentes com tão superiores natureza e normas de viver. Tudo o que fazemos aqui é satisfação de fazer com amor, no simples exercício de sacralizar todos os atos porque, embora possamos perceber a diversidade da criação nos seus mais váriados graus de evolução, percebemos também aqui a unidade e origem divina de todas as coisas e seres e, com  todas nos identificamos,  reconhecendo ali  o próprio Deus. Então o mais alto Bhava é Bhavana, o mais alto Dharma é o Amor e o mais alto Karma  é Naishkarmya.

    Que cada um de nós possa estar muito comprometido como uma melhor análise do seu Bhava e que isso promova uma mais harmoniosa forma de leis e regras e que, finalmente, possamos ser, de forma crescente,  cada vez mais, coerentes, podendo assim viver aquilo que denominamos como uma vida feliz.

     SUBHAMASTU SARVA JAGHATAM  !!!!

                                            

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